25 novembro 2005

País engraçado

Como não pude até agora, por falta de tempo, desenvolver e aprofundar as notas soltas que publiquei no post anterior (as quais dizem respeito não às questões do multiculturalismo e da emigração, como à primeira vista poderá parecer, mas a algo muito mais profundo que pode constituir o fim inglório e abjecto da civilização ocidental e de que os próprios emigrantes serão vítimas), aqui fica entretanto um texto de autor desconhecido, professor de filosofia, que me foi enviado por um amigo e que eu mesmo poderia subscrever.



O atestado médico


O atestado médico

Imagine o meu caro que é professor, que é dia de exame do 12º ano e vai ter
de fazer uma vigilância.

Continue a imaginar. O despertador avariou durante a noite. Ou fica preso no
elevador. Ou o seu filho, já à porta do infantário, vomitou o quente,
pastoso, húmido e fétido pequeno-almoço em cima da sua imaculada camisa.

Teve, portanto, de faltar à vigilância. Tem falta. Ora esta coisa de um
professor ficar com faltas injustificadas é complicada, por isso convém
justificá-la. A questão agora é: como justificá-la? Passemos então à parte
divertida.

A única justificação para o facto de ficar preso no elevador, do despertador
avariar ou de não poder ir para uma sala do exame com a camisa vomitada,
abandalhada e malcheirosa, é um atestado médico. Qualquer pessoa com um
pouco de bom senso percebe que quem precisa aqui do atestado médico será o
despertador ou o elevador. Mas não. Só uma doença poderá justificar a sua
ausência na sala do exame.

Vai ao médico. E, a partir deste momento, a situação deixa de ser divertida
para passar a ser hilariante.

Chega-se ao médico com o ar mais saudável deste mundo. Enfim, com o sorriso
de Jorge Gabriel misturado com o ar rosado do Gabriel Alves e a felicidade
do padre Melícias. A partir deste momento mágico, gera-se um fenómeno que só
pode ser explicado através de noções básicas da psicopatologia da vida
quotidiana.

Os mesmos que explicam uma hipnose colectiva em Felgueiras, o holocausto
nazi ou o sucesso da TVI.

O professor sabe que não está doente. O médico sabe que ele não está doente.
O presidente do executivo sabe que ele não está doente. O director regional
sabe que ele não está doente. O Ministério da Educação sabe que ele não está
doente. O próprio legislador, que manda a um professor que fica preso no
elevador apresentar um atestado médico, também sabe que o professor não está
doente.

Ora, num país em que isto acontece, para além do despertador que não toca,
do elevador parado e da camisa vomitada, é o próprio país que está doente.

Um país assim, onde a mentira é legislada, só pode mesmo ser um país doente.

Vamos lá ver, a mentira em si não é patológica. Até pode ser racional, útil
e eficaz em certas ocasiões. O que já será patológico é o desejo que temos
de sermos enganados ou a capacidade para fingirmos que a mentira é verdade.

Lá nesse aspecto somos um bom exemplo do que dizia Goebbels: uma mentira
várias vezes repetida transforma-se numa verdade.

Já Aristóteles percebia uma coisa muito engraçada: quando vamos ao teatro,
vamos com o desejo e uma predisposição para sermos enganados. Mas isso é
normal.

Sabemos bem, depois de termos chorado baba e ranho a ver o "ET", que este é
um boneco e que temos de poupar a baba e o ranho para outras ocasiões.

O problema é que em Portugal a ficção se confunde com a realidade.

Portugal é ele próprio uma produção fictícia, provavelmente mesmo desde D.
Afonso Henriques, que Deus me perdoe.

A começar pela política. Os nossos políticos são descaradamente mentirosos.
Só que ninguém leva a mal porque já estamos habituados. Aliás, em Portugal
é-se penalizado por falar verdade, mesmo que seja por boas razões, o que
significa que em Portugal não há boas razões para falar verdade.

Se eu, num ambiente formal, disser a uma pessoa que tem uma nódoa na camisa,
ela irá levar a mal. Fica ofendida. Se eu digo isso é para a ajudar, para
que possa disfarçar a nódoa e não fazer má figura. Mas ela fica zangada
comigo só porque eu vi a nódoa, sabe que eu sei que tem a nódoa e porque
assumi perante ela que sei que tem a nódoa e que sei que ela sabe que eu
sei.

Nós, portugueses, adoramos viver enganados, iludidos e achamos normal que
assim seja. Por exemplo, lemos revistas sociais e ficamos derretidos (não
falo do cérebro, mas de um plano emocional) ao vermos casais felicíssimos e
com vidas de sonho. Pronto, sabemos que aquilo é tudo mentira, que muitos
deles divorciam-se ao fim de três meses e que outros vivem um alcoolismo
disfarçado.
Mas adoramos fingir que aquilo é tudo verdade.

Somos pobres, mas vivemos como os alemães e os franceses. Somos ignorantes e
culturalmente miseráveis, mas somos doutores e engenheiros. Fazemos
malabarismos e contorcionismos financeiros, mas vamos passar férias a
Fortaleza.

Fazemos estádios caríssimos para dois ou três jogos em 15 dias, temos auto-
estradas modernas e europeias, mas para ver passar, a seu lado, entulho,
lixo, mato por limpar, eucaliptos, floresta queimada, barracões com chapas
de zinco, casas horríveis e fábricas desactivadas.

Portugal mente compulsivamente. Mente perante si próprio e mente perante o
mundo.

Claro que não é um professor que falta à vigilância de um exame por ficar
preso no elevador que precisa de um atestado médico. É Portugal que precisa,
antes que comece a vomitar sobre si próprio.

10 novembro 2005

À atenção das associações de pais e, em especial, à CONFAP

Dizia o Professor Agostinho da Silva, que tanto se bateu por um ensino humanista (e o praticou), que mais importante do que educar é não deixar deseducar. E, contrariando uma interpretação superficial e apressada daquilo que era a sua perspectiva sobre o ensino e a escola, afirmava que nunca lhe passara pela cabeça que ir à escola fosse um acto meramente voluntário: ao contrário, mandar os filhos à escola é algo que, enquanto a sociedade assim estiver estruturada é, em si mesmo, um acto educativo, na medida em que ir à escola (para estudar, entenda-se!) constitui um acto de solidariedade para com o esforço e o sacrifício quotidianos de todos os outros. Mandar os filhos à escola, neste sentido, é um papel exclusivo da família, que só ela está em condições de poder fazer.
Aqui há tempos, desabafava um amigo meu (não é professor!): "Eh!pá! Antigamente, quando chegava lá a casa uma convocatória do director da escola para o encarregado de educação ir falar com ele por causa do filho, o puto começava logo a borrar-se, que o pai já não o via a direito só de pensar na vergonha de ter um filho que se portava mal. Agora, quando um pai vai à escola é para proteger o coitadinho do filho, pedir compreensão, ou insultar, ou picar os miolos da escola toda, mesmo que ele só faça merda !".
Hoje de manhã, na SICNotícias, um jovem empresário português em França (que emprega magrebinos, muito embora já tenha tido que despedir alguns deles por mau comportamento), interrogado pela jornalista sobre a quem atribuía responsabilidades sobre o que está a acontecer, respondia: "Eu acho que a culpa é dos pais. São putos de 14, 16 anos... Às nove horas, são horas de eles estarem em casa, não é para andarem por aí...!".
No noticiário das 13h, na RTP1, referia-se a prisão de uma rapariga de 10 (!) anos por participação nos tumultos.
O que escrevi são apenas notas que considero significativas. Prometo voltar ao assunto com mais profundidade.

04 novembro 2005

Para inaugurar, uma Farpa do Eça

O parlamento vive na idade de ouro. Vive nas idades inocentes em que se colocam as lendas do Paraíso- quando o mal ainda não existia, quando Caim era um bom rapaz, quando os tigres passeavam docemente par a par com os cordeiros , quando ninguém tinha tido o cavalheirismo de inventar a palavra calúnia- e a palavra mente não atraía a bofetada!
Senão vejam! Todos os dias aqueles ilustres deputados se dizem uns aos outros: " É falso!. É mentira! " E não se esbofeteiam não se enviam duas balas! Piedosa inocência! Cordura evangélica! É um parlamento educado por S. Francisco de Sales!
-O ilustre deputado mente!
-Ah minto? Pois bem, apelo...
Cuidam que apela para o espalmado da sua mão direita ou para a elasticidade da sua bengala? Não, meu caros senhores, apela - para o País!
Quanta elevação cristã num diploma de deputado! Quando um homem leva em pleno peito, diante de duzentas pessoas que ouvem e de mil que lêem, este rude encontrão: "É falso" e diz com uma terna brandura: "Pois bem. apelo para o País!"-. este homem é um santo. Não entrará decerto nunca no Jockey Club, de onde a mansidão é excluída, mas entrará no reino do céu, onde a humildade é glorificada.
É uma escola de humildade este parlamento! Nunca em parte nenhuma, como ali, o insulto foi recebido com tão sentida resignação! Sublime curso de caridade cristã. E veremos os tempos em que um senhor deputado. esbofeteado em pleno e claro Chiado , dirá modestamente ao agressor, mostrando o seu diploma: " Sou deputado da Nação portuguesa! Apelo para o País! Pode continuar a bater! "
E depois que doçura de expressões! Não vimos ainda há pouco o Sr.Ávila designado no meio de uma questão financeira com estas benévolas qualificações - camaleão. sapo. elefante! Que autoridade no dizer! Que elevação no pensar!
Como é instrutivo, como é moral, o ver discursos assim concebidos:
"Não aprovo projecto do ilustre presidente do Conselho, porque entendo na minha consciência, e digo-o à face do País que sua excelência é uma verdadeira serpente.
Mando para a mesa a seguinte moção: a Câmara. compenetrada de que o senhor ministro da Fazenda é uma lontra, passa à ordem do dia!
Depois o modo carinhoso como a Câmara tomou conta da infeliz palavra insulto!
Aquela pobre palavra, tão comprometedora, que nunca aparecia outrora que não fosse o sinal de um duelo ou de uma política correccional - o parlamento refez-lhe uma virgindade e um decoro, e ela agora vem, e ninguém se revolta, e o Sr. António Aires tem para ela um bom sorriso.
-O ilustre deputado há três dias não faz senão insultar-me(textual) três dias!
-O ilustre deputado não me insulte!
-Vou responder a esses insultos!
-Menos insultos!
Ai: O mundo despoetiza-se! As coisas terríveis perdem o colorido da lenda. As crianças riem do papão. O diabo já não é temido. O insulto já não é aviltante. Não é! A Câmara dos Deputados vive há mês, tendo no seu seio o insulto, em perpétua ordem do dia-e engorda!
Mas o senhor António Aires esse, para que continua a dizer com a sua voz eloquente::
-Amanhã continua a mesma discussão ?
A escrupulosa verdade- e sua excelência. sacerdote católico , está adstrito a observar este regimento da consciência -pede que se declare:
-Amanhã continua a mesma assuada .
Assim o público ficava avisado-e os senhores deputados também! Porque nada deve custar mais a um ilustre deputado , que quer zelar os interesses do país , do que ver , numa discussão , exausta a sua colecção de injúrias , findos os seus apontamentos de berros.!
Não é quem quer doutor em impropérios! E assim, devidamente prevenido , cada deputado podia formar de véspera uma útil e séria lista de argumentos-consultando o dicionário, o seu aguadeiro, a porta da alfândega e os fadistas da praça da Figueira .

Agosto 1871